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O PT e os sindicatos no regime do golpe
Felipe Guarnieri
Operador de trem da L1 Azul do Metrô de SP

O presente artigo é um dos documentos que expressam debates feitos no período do IV Congresso do MRT. E busca contribuir em apontar cenários estratégicos para a construção de um partido revolucionário na vanguarda operária, que possa servir como alternativa para o movimento de massas frente à crise orgânica no Brasil.

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Imagem: Alexandre Miguez

Um breve histórico do regime sindical brasileiro

O regime sindical sempre foi um fator determinante para a consolidação da hegemonia burguesa no Brasil. Contrariando a historiografia que teoriza sobre a passividade da classe operária brasileira, as ações de coerção da burguesia contra o movimento operário nunca foram suficientes para a contenção e estabilização da luta de classes. Essas ações tiveram que ser combinadas com instrumentos de cooptação, e principalmente a construção de um regime sindical atrelado ao estado como pilar para sustentar o desenvolvimento desigual e combinado da indústria no capitalismo brasileiro.

Fundamentalmente, foi essa política levada a frente por Vargas para responder de forma estrutural a primeira onda grevista do movimento operário no início do século XX. Se por um lado, o economicismo dos anarquistas na direção do movimento operário nas duas primeiras décadas do século XX foi um limite para impor uma derrota ao estado burguês. Por outro lado, a ação repressiva da república velha à vanguarda operária e suas organizações políticas e sindicais, não impediram ações contundentes do movimento operário, como a primeira greve geral de 1917, e a criação do PCB em 1922. O movimento operário, portanto, constituía-se como um obstáculo estratégico para a burguesia nacional estabelecer uma política de desenvolvimento industrial aliada aos interesses imperialistas. Trotsky, em 1938, caracterizava dessa forma o regime no Brasil ao discutir sobre a situação política na América Latina:

Se a burguesia nacional está obrigada a abandonar a luta contra os capitalistas estrangeiros e trabalha sob tutela direta, teremos um regime fascista como no Brasil, por exemplo. Mas ali a burguesia é absolutamente incapaz de constituir sua dominação democrática, porque, por um lado tem o capital imperialista, e por outro, tem medo do proletariado, porque a história lá saltou uma etapa e o proletariado se tornou um fator importante antes que tenha sido realizada a organização democrática do conjunto da sociedade. [1]

Entretanto, o caráter bonapartista de direita do regime do Estado Novo (1937/1945) estabelecido por Vargas, não contou apenas com ações repressivas ao movimento operário. Diferente do período anterior e ameaçado pela situação de instabilidade promovida pela eminência da segunda guerra mundial, Vargas foi além. Influenciado pela Carta del Lavoro de Mussolini na Itália, criou a CLT, regulamentando uma série de direitos conquistados pelo movimento operário através da luta de classes, ao passo que institucionalizou os sindicatos, através de uma relação de tutela com o estado capitalista, como tentativa de controle das greves e das organizações independentes do proletariado brasileiro (resignando essas à clandestinidade).

Constrói-se assim a estrutura de um regime sindical corporativo, através da unicidade sindical, aonde o sistema jurídico do estado impõe limites a atuação sindical, por meio da abrangência territorial, segmentando a classe trabalhadora em categorias profissionais, e convenções coletivas (data-base), dentro de períodos diversificados, restringindo e dificultando ações unificadas da classe operária, como paralisações de solidariedade, ou principalmente a greve geral. Combinado a isso, ocorre também o processo de cooptação das direções sindicais, materializado com a criação do imposto sindical, que estabelecia uma dependência financeira dos sindicatos com o estado burguês, limitando sua autonomia e independência, cristalizando assim o escopo de uma burocracia sindical. Mais uma vez as teses de Trotsky confirmam sua validade:

Por outro lado, os governos dos países atrasados, que consideram inevitável ou mais proveitoso marcharem lado a lado com o capital estrangeiro, destroem as organizações operárias e implantam um regime mais ou menos totalitário. De modo que a debilidade da burguesia nacional, a ausência de uma tradição de governo próprio, a pressão do capital estrangeiro e o crescimento relativamente rápido do proletariado cortam pela raiz toda a possibilidade de um regime democrático estável. O governo dos países atrasados, ou seja, coloniais ou semicoloniais, assume, no seu conjunto, um caráter bonapartista ou semi-bonapartista. Diferem entre si porque enquanto alguns tratam de se orientar para a democracia, buscando o apoio de operários e camponeses, outros implantam uma rígida ditadura policial-militar. Isso determina também a sorte dos sindicatos: ou estão sob tutela do estado ou estão sujeitos a uma cruel perseguição. Essa tutela corresponde a duas tarefas antagônicas às quais o estado deve encarar: em primeiro lugar atrair a classe operária para assim ganhar um ponto de apoio para a resistência às pretensões excessivas por parte do imperialismo, e ao mesmo tempo, disciplinar os mesmos operários colocando-os sob o controle de uma burocracia. [2]

A colaboração de classes do stalinismo nos sindicatos

O stalinismo brasileiro, apoiando-se no prestígio da revolução russa, assumiu uma localização política superior aos anarquistas no movimento operário, e legitimou profundamente essa estrutura criada por Vargas sob os interesses do imperialismo. Será condizente com a política de colaboração de Prestes com Vargas no Queremismo em 1945. E o PCB mesmo na clandestinidade após 1947, seja no seu giro mais sectário ou oportunista, não renunciou à sua estratégia de conciliação e foi determinante para a estruturação do PTB de Getúlio, e posteriormente de Jango e Brizola, no interior do movimento sindical. A consolidação do que a direita golpista das décadas de 50 e 60 chamou de “República Sindicalista”, taxando ideologicamente como “comunismo” para justificar suas reais intenções de conter a luta de classes pela aplicação do golpe militar, atacando as organizações operárias e impondo uma derrota estratégica para o movimento de massas.

Logicamente, que essa república sindicalista estava longe de representar qualquer variante comunista, tratava-se mais de uma política de estado de uma determinada fração da burguesia nacional, que o stalinismo pecebista elegeu como aliada estratégica, contribuindo decisivamente para a derrota do movimento operário numa situação pré-revolucionária. O PCB respeitou integralmente, nos anos 50 e 60, o regime sindical, que foi determinante para a sua política de contenção da revolução Brasileira, sob diretrizes do PCUS e os acordos de colaboração com o imperialismo norte americano firmados em Yalta/ Potsdam. Sua localização junto ao PTB nos sindicatos, era a base para a conformação de uma frente nacionalista, que teorizava sob o caráter pacífico da revolução, como uma etapa necessária para o socialismo. O resultado disso foi uma traição construída pelo stalinismo, que sufocava e taxava como pequeno burguês e sectários os fenômenos de auto-organização operária nas bases das forças armadas, separando e dividindo o movimento operário e suas greves políticas nas principais capitais. No campo, o partido na busca quase incansável de uma suposta burguesia nacional com aspirações democráticas e anti-imperialista, tinha como centro uma linha política institucional na criação de sindicatos agrícolas, chocando-se com as ações radicalizadas e o programa de reforma agrária “na Lei ou na Marra” das Ligas Camponesas. Se por um lado, o PCB conseguiu que as greves de fato fossem gradativamente se transformando em pacíficos comícios pró Jango. Por outro, o poderio da classe operária impôs a greve geral de 1962 (a qual stalinistas e Jango não conseguiram conter, por mais que o desejassem), como também a criação do CGT, uma espécie de central sindical que unificava as categorias e se chocava com o regime de unicidade sindical vigente. Não por acaso, instituições patronais e golpistas como a FIESP se recusavam a negociar com os representantes do CGT.

A intervenção da Ditadura Militar

Mesmo o golpe militar, que tinha a classe operária como alvo, manteve as bases estruturais do regime sindical de Vargas. Ao contrário de pôr fim a esse regime, a Ditadura prendeu, torturou e assassinou diversos dirigentes operários e impôs uma ingerência superior do Estado, através do Ministério do Trabalho, destituindo diretorias eleitas pelos trabalhadores nos sindicatos. Ou seja, as direções eleitas dos sindicatos tinham que ser submetidas a aprovação do governo para que pudessem assumir a posse. Os sindicatos passaram por um processo de intervenção direta, o que levou a um processo de reorganização do movimento operário ao longo dos anos 60, a partir do ascenso internacional de 1968. A força dos movimentos de juventude no Brasil também ressoou em greves importantes no movimento operário como Osasco e Contagem, baseadas na auto-organização e que se enfrentaram diretamente com a estrutura sindical vigente. Tendo como símbolo o Ato do 1º de maio de 1968, onde dirigentes pelegos do PCB e o governador da Ditadura Abreu Sodré foram expulsos por operários com paus e pedras do palanque construído na Praça da Sé.

Desse processo, surge uma importante vanguarda operária, que seria exposta nos anos de repressão dura do AI-5 a equivocada estratégia reformista de guerrilha por variantes do stalinismo e do maoísmo que se organizavam por fora do PCB (esfacelado após a derrota do golpe e institucionalizado no sindicalismo oficial da Ditadura). Outra parte dessa vanguarda participou posteriormente da organização da oposição metalúrgica em SP, sob forte influência da Pastoral operária, que se enfrentava com a direção pelega de Joaquinzão a frente do Sindicato dos Metalúrgicos na organização das greves. Paralelamente, nas montadoras e automotivas do ABC, inicia-se um processo importante de recomposição da luta de classes, que se combinou com o aumento da carestia de vida e uma crise brutal das classes médias com o regime militar, potencializada com o ataque as liberdades democráticas.

O sindicalismo “autêntico” de Lula na transição da Ditadura para a democracia burguesa

A burguesia brasileira e alas do próprio regime militar tinham como principal preocupação uma abertura lenta, gradual e segura de transição da ditadura para a democracia, com consciência que as direções do sindicalismo oficial eram incapazes de controlar o movimento operário para esse objetivo numa conjuntura convulsiva da luta de classes. Por isso, o regime permite a dissidência de uma ala dessa burocracia sindical. O sindicalismo “autêntico” de Lula e seus aliados nasceu como uma variante do sindicalismo oficial no ABC. Mais combativo no sentido de dar vazão as reivindicações operárias e se relocalizar no novo afluxo da luta de classes, que originou a criação da CUT e do PT, entretanto com uma direção burocrática, que neutralizava nos piquetes do ABC todo e qualquer processo de auto-organização operária. Além de atuar para separar as lutas econômicas da política, negando-se a unificar com a oposição metalúrgica em São Paulo.

Essa prática do chamado “sindicalismo autêntico” ainda que se enfrentava com medidas do regime militar, no cerne da estrutura respeitava os limites do regime sindicalista de Vargas. Foi essa localização que permitiu a direção lulista, sem contraposição ou alternativa da esquerda trotskista no interior do PT, a ser um protagonista relevante ao se apoiar no movimento operário para negociar a transição de regime. Não permitiu, assim, que a ditadura caísse pelas mãos da classe operária, mas sim fosse acordada com os setores liberais e progressistas da burguesia e com as distintas alas do regime militar, que levaram a constituição de 1988, a manutenção do regime sindical varguista e a aplicação da Lei Ampla de Anistia, a qual perdoava também torturadores e defensores do regime.

O PT nos anos 90 e o PT no poder

Como resultado da transição a direção lulista assume uma localização superior nos anos 90, a partir da inserção da CUT no movimento sindical. Será a plataforma de apoio do PT nos anos neoliberais de oposição burguesa ao governo de FHC. O PT assumiu uma retórica anti-neoliberal, combinada com uma prática capitalista e de conciliação de classes, que contraditoriamente ao passo que se institucionalizava dentro desse novo regime, também assumia para si, em prefeituras ou em novas estruturas dentro do regime as medidas tardias do neoliberalismo Brasileiro e da reestruturação produtiva. Já traia greves como a da Petrobras em 1995. Não é coincidência que Palloci será o idealizador da Carta ao Povo Brasileiro nas eleições de 2002, após os anos de prefeito na cidade de Ribeirão Preto. Ao garantir suas boas intenções para a burguesia brasileira, o PT se alça ao poder se distanciando de qualquer perspectiva anti-neoliberal, apoiando-se no regime sindical para implementar os ajustes necessários do imperialismo e dos setores do capital financeiro, com a criação de milhares de empregos precários através da terceirização e apoiando-se nos anos de crescimento econômico para conceder pequenas concessões e não perder seu apoio na base operária e popular.

O PT busca então construir um projeto de país, onde o regime sindical e a influência de Lula, conseguia não somente estabelecer uma política de aliança no parlamento com o PMDB e o fisiologismo partidário do “Centrão”, como também estabelecia uma coalizão nos representantes da própria estrutura sindical. As mais distintas correntes da burocracia sindical convergem num único objetivo com o aumento da distribuição do imposto sindical para conservar seus privilégios, e passam a ser uma rígida base de apoio do lulismo, e consequentemente constroem anos de pacificação da luta de classes a frente dos gigantescos aparatos sindicatos. Permitindo o aprofundamento de ataques importantes como a terceirização e a reforma da previdência de Lula, ao passo que concedia pequenos reajustes condicionados a inflação as categorias mais tradicionais e combativas para conter processos paredistas.

As contradições desse pacto começam a ser sentidas já no final do primeiro Governo Dilma, com a ascensão de uma nova onda de greves a partir de 2012. Nos anos de 2012 e 2013, o Brasil atinge um número recorde de greves operárias desde 1984, chegando a 2050 no ano. Essas greves foram marcadas em dois momentos, um primeiro momento de traços anti-burocráticos, consideradas “selvagens” como na construção civil em Jirau, Belo Monte e Santo Antônio entre 2011 e 2012, ou em 2014 com os garis do Rio de Janeiro, os Rodoviários de Porto Alegre e os metroviários de São Paulo, que protagonizaram fortes greves que se chocaram contra a política econômica voltada a Copa do Mundo. Porém, essas assumiam também um limite econômico que predominou a maioria das greves por melhores condições de trabalho e por reajuste salarial até as manifestações das jornadas de junho de 2013. Nesse segundo momento, as greves, combinadas com os protestos nas ruas que se iniciaram com a juventude contra o aumento da passagem em SP e nas principais capitais, adquiriram um caráter político, já que levantou a tona não somente reivindicações econômicas, como também democráticas radicais ligadas aos direitos das mulheres, negros e LGBTs.

Os protestos nas ruas assumiram uma espécie de revolta popular, que apesar de atingir também governadores do PSDB e da direita tradicional, quebraram o epicentro hegemônico dos governos petistas da década anterior. Nesse momento, o papel da burocracia sindical foi extremamente cirúrgico, ao isolar as lutas da juventude com o crescente aumento de greves nas fabricas, aliada a inteligência petista que ao perceber que se colocava em xeque pelo movimento de massas começa a teorizar que junho de 2013 foi um movimento de direita. Ao exigir mais da burocracia sindical, com o agravamento da crise econômica e social, esse processo também marca a cisão da burocracia sindical no governo petista, já com a Força Sindical e UGT declarando apoio a Aécio Neves nas eleições de 2014.

A quebra pela direita no regime sindical após o golpe institucional

O impasse estratégico que prevaleceu em junho de 2013 dos setores a esquerda do PT, por distintas razoes não servirem de alternativa e assim não conseguirem canalizar e capitalizar as manifestações, permitiu a direita tradicional e a extrema direita se relocalizarem no regime. Entretanto, fissurado pela crise orgânica, onde era difícil para esses setores se ligarem aos sentimentos e o espírito que surgiram partir daí. O aumento da insatisfação popular com o regime e da crise representatividade das classes médias, de forma não canalizada racionalmente por uma esquerda revolucionária, abriu uma disputa de hegemonia burguesa que convergiram para o golpe institucional de 2016, mas que posteriormente não resolveram essa questão estratégica. Se a burguesia e as instituições, como o STF e a Polícia Federal com a operação Lava Jato, conseguiram se aproveitar da quebra de hegemonia petista, para aplicar um golpe que acelerasse os ataques a classe trabalhadora, retirando a mediação de conciliação de classe petista, por outro lado o resultado desse processo de forma distorcida pela crise no regime político brasileiro levou a ascensão de Bolsonaro e a extrema direita ao poder em 2018.

A eleição de Bolsonaro só foi possível pela dinâmica de mudança do regime com o golpe institucional. Seja do ponto de vista estratégico do governo provisório de Temer conseguir aprovar a reforma trabalhista, mesmo em meio a uma conjuntura pré-revolucionária, aberta com as greves dos transportes em março de 2017 que se generalizaram no mês seguinte, e que teve como desfecho um reacionário acordo com a burocracia sindical com Rodrigo Maia, cujo objetivo era manter o imposto sindical. Seja do ponto de vista petista que aceitou o golpe pacificamente, decidindo não mover seu aparato para tentar resguardar sua localização novo regime. Mesmo sem concretizar o acordo com Maia no Congresso, a burocracia sindical desarticula em conjunto mais uma greve geral, conseguindo apenas um adiamento da reforma da previdência, votada no congresso após as eleições de 2018.

Se a classe trabalhadora, pela disposição e força que possui conseguiu evitar uma derrota estratégica, apesar da política traidora do PT e da burocracia sindical, por outro lado não conseguiu evitar derrotas importantes que a consolidação do regime do golpe havia proporcionado a partir da eleição de Bolsonaro e a aprovação da reforma da previdência, também sob a traição da UGT com a conivência da CUT, CTB e Força Sindical. Estava destinado ao fim o regime sindical do período anterior, a burguesia com ajuda da burocracia sindical havia retirado as mediações que via como obstáculo para acelerar os ajustes neoliberais da economia e descarregar a crise nas costas da classe trabalhadora. Para isso, materialmente enfraqueceu decisivamente os sindicatos com o fim do imposto sindical, ainda que preservando alguns dos privilégios da burocracia por meio de decisões do STF, combinado com uma operação ideológica de fomentar na consciência de massas um sentimento anti-sindical que se confundia com o privilégio dos seus dirigentes.

O fim do imposto sindical aliado a reforma trabalhista e da previdência foi, portanto, uma quebra pela direita do regime sindical varguista, que determinou bastante a abertura de uma situação reacionária no Governo Bolsonaro, combinado ao ataque aos direitos políticos com as eleições manipuladas de 2018, diante a prisão de Lula. Garantindo um refluxo importante da luta de classes, não somente pela ofensiva bolsonarista aos direitos democráticos e econômicos, mas também pela tentativa desesperadora do PT e da burocracia sindical garantirem sua preservação no regime.

Para onde vai o PT?

O PT a partir daí sofre um segundo processo de institucionalização. Assim como o partido se institucionalizou com o novo regime de 1988, nos anos de oposição burguesa a FHC, o PT teve uma opção consciente desde o golpe institucional em não se apoiar no movimento de massas para oferecer qualquer tipo de resistência. Se por um lado, como demonstra nos escritos de Trotsky o fascismo preservou historicamente a socialdemocracia da liquidação, como uma variante de dominação burguesa a classe operária. Por outro, o PT buscou essa preservação dando garantias para a burguesia através da pacificação (tanto no Golpe quanto na prisão de Lula), como em relação ao se comprometer com ajustes e as reformas principalmente após a decisão do STF de suspeição de Moro e da recuperação dos direitos políticos de Lula, tendo em vista as eleições de 2022. Lula aparece como figura mais sólida do bonapartismo institucional frente a Bolsonaro, principalmente após o aprofundamento da crise dos partidos da direita tradicional nas eleições municipais de 2020, e a lógica pragmática do “Centrão” no congresso nacional que ainda mantém seu apoio relativo a Bolsonaro.

A burguesia brasileira pressiona o PT para que ele seja uma espécie semelhante ao trabalhismo inglês de Tony Blair. O Blairismo representou fundamentalmente a guinada à centro- direita do Partido Trabalhista inglês, influenciando todos os partidos trabalhistas europeus e também da socialdemocracia, a se alinhar aos ajustes neoliberais no inicio dos anos 2000, com uma política de favorecimento do capital financeiro, ataques aos direitos históricos oriundos do estado de bem estar social após a segunda guerra, e um afastamento da sua base sindical a partir do abandono de uma série de reivindicações econômicas e trabalhistas.

Intenções do PT a responder esse sinal da burguesia não faltam, não somente pelos anos de governo que Lula desempenhou diante o capital financeiro, como também do relativo distanciamento que o partido vem assumindo da base sindical para atestar sua viabilidade eleitoral. A principal iniciativa da CUT no último período, não se deu apenas em aceitar os ataques, como buscou uma aliança junto a Força Sindical na indústria, criando o IndustriAll. Uma espécie de rede internacional de sindicatos, com representação agora no Brasil, que abrange os sindicatos ligados a indústria da CUT e da Força Sindical. Longe de representar uma alternativa a precarização do trabalho e a deterioração dos direitos trabalhistas, o IndustriAll representa uma espécie de plataforma nacional desenvolvimentista no movimento sindical, como instrumento de colaboração a patronal para recuperar o avanço industrial debilitado no último período. Essa movimentação sindical, corresponde as declarações recentes de dirigentes da Força Sindical, que apontam Lula como principal candidato frente a Bolsonaro, se ele até lá mantiver seus direitos políticos.

Esse cenário aponta para uma solidez mais robusta da candidatura de Lula para 2022 atrelada ao capital financeiro e imperialista, ainda que com duas contradições importantes. A primeira que do ponto de vista econômico se trata do peso do agronegócio na economia brasileira, e como esse é uma fração da burguesia que permanece alinhada ao bolsonarismo, apesar de toda a disputa ideológica com a China. O setor do agronegócio foi um dos únicos que permaneceu crescendo e obtendo safras recordes mesmo durante a pandemia, em detrimento da indústria que segue em baixa, abaixo do setor de serviços.

A segunda contradição se dá justamente no âmbito social, pois a própria recuperação do trabalhismo europeu, se dá por fora do chamado New Labor, corrente da direita trabalhista que em 2019 rompeu com o partido trabalhista, seguindo as diretrizes de Tony Blair, buscando uma aliança com a direita tradicional e os conservadores em torno da permanência da Inglaterra na União Europeia e contra o Brexit. Nesse sentido, seguir por esse caminho irá aprofundar as contradições entre a cúpula petista e sua base sindical, significaria enfraquecer o partido e sua base histórica para se respaldar como alternativa de poder.

Essas contradições possuem outro agravante da situação objetiva do movimento operário. Afinal, como pode ser Lula e o PT preservados como variante de dominação burguesa dentro do regime do golpe, ao mesmo tempo que permanece o esfacelamento do regime sindical varguista? O próprio partido estaria disposto a se distanciar mais da sua base sindical? São fissuras que somente a dinâmica da luta de classes como fator determinante da relação de forças podem estabelecer. Se compararmos ao nível de subjetividade presente atualmente na situação reacionária, dentro de um país que é centro da epidemia e de um governo da extrema direita, poderia se considerar essa uma hipótese viável de projeto de partido petista para o próximo período, e sem dúvida é algo que devemos considerar. Ainda que, não devemos descartar também um outro cenário de retorno de Lula ao poder acompanhado pela recomposição do regime sindical, com um novo fortalecimento dos sindicatos e da burocracia sindical, entretanto dentro de um pacto social mais débil pelo agravamento da crise econômica.

Ainda mais que provavelmente o PT contará com a colaboração do PSOL para essas empreitadas, e ainda que o PCdoB após a unificação com o PPL, que deve seguir sindicalmente entre CTB e CGTB, não faça questão de esconder sinais para o projeto desenvolvimentista de Ciro Gomes, uma candidatura de Lula ainda segue sendo mais forte, em particular no segundo turno onde esses blocos tendencialmente irão se alinhar. Paralelamente a isso, no marco da esquerda que se reivindica revolucionária, guiada pela linha de adaptação do PSTU em 2016, a CSP- Conlutas inegavelmente hoje é um organismo mais burocratizado e descolado da realidade após golpe. Entretanto, ainda é uma organização que existe em setores da vanguarda operária, e por isso mesmo, correntes de dentro do PSOL seguem no seu interior. Ainda que, mesmo se opondo a linha do PSTU, ou apontam para o projeto eleitoral petista como o Resistencia, ou para uma política de “frente ampla” contra Bolsonaro como o MES.

Para novos dias emergirem, o vento da luta de classes tem que ser transformado em tempestade pelos revolucionários

Além da dinâmica do movimento sindical, devemos nos preparar também para uma dinâmica de viragens mais bruscas da realidade, em especial relacionada ao fator da luta de classes. Isso significa no movimento operário identificar justamente o elo débil hoje que a burguesia possui em relação aos sindicatos. Porque, se é verdade que os sindicatos se enfraqueceram pela direita, como forma de acelerar os ajustes, também o é o fato de que eles também se enfraqueceram como mediações de controle, e permite assim que processos de lutas de classes possam se dar a revelia da burocracia sindical, ainda mais tendo em vista a crescente precarização do trabalho, desemprego no Brasil da pandemia. Processos como esse já podem ser observados, ainda que isolados pela burocracia sindical, como a luta das trabalhadoras e trabalhadores efetivos e terceirizados da LG contra as demissões, e tendem a se intensificar motorizados pela conjuntura internacional na américa latina como recentemente no Chile, Paraguai e agora na Colômbia, que podem trazer novos ventos da luta de classes no Brasil contra Bolsonaro e os setores golpistas.

A recuperação parcial da economia, prevista com o avançar das vacinas ainda é relativa, mas também pode impactar muito os setores tradicionais da classe operária. A nacionalização do dia 20 de abril no setor de transportes indicou isso, combinado a professores, são categorias que foram vanguarda desde 2017, e é onde a burocracia sindical concentra a maior parte da sua atuação e manobras na sua conjuntura. A predisposição de vários setores estratégicos realizarem um dia de paralisação pela vacinação permitiu minimamente a luta de classes voltar a ser um fator na conjuntura, apesar da política da burocracia sindical novamente recuar em estados como SP, apoiando-se na negociação com Dória e na disputa nacional que trava com Bolsonaro para 2022. Mesmo assim, isso não descarta a eminência de ataques econômicos duros que devem ocorrer em meio as campanhas salariais e a politica de privatização levada a frente pelos governos federal e estaduais, que podem abrir novos conflitos ainda nesse primeiro semestre.

Nesse sentido, se por um lado a atuação dos revolucionários passa pela formação teórica de novos quadros e dirigentes no movimento operário num período de refluxo e com baixo ativismo operário, por outro lado uma plataforma programática anticapitalista é que irá possibilitar estarmos preparados para atuar em momentos de viragens, para servir como alternativa ao aprofundamento da crise orgânica no Brasil. O MRT concentra sua atividade política em instrumentos como o Esquerda Diário, ligada ao aspecto estratégico de estabelecer tribunos do povo e construir bastiões em locais de trabalho e estudo para uma política de hegemonia operária, que se trata justamente do diferencial em relação as correntes reformistas e centristas do movimento operário, que abandonam a luta em torno das consignas democráticas radicais, separando o proletariado do movimento de massas.

Construir bastiões com essa predominância estratégica segue sendo uma tarefa preparatória fundamental na atual conjuntura, ainda que pese todos os elementos de contra corrente que pressionam o sindicalismo, o ceticismo e o questionamento da classe trabalhadora em ser protagonista. Não ceder a uma visão objetivista da classe trabalhadora, ou subjetivista, trata-se de tarefa fundamental em combater essas pressões cotidianas. Mesmo em situações reacionárias, o aprofundamento da crise orgânica abre janelas de oportunidade para a construção do partido revolucionário, cabe a nós estarmos preparados para não perder essas brechas, e de fato fazer a diferença quando essas oportunidades surgirem. Os inimigos da classe operária e os oportunistas querem fechar essas janelas com a justificativa de que o vento que irá entrar é muito forte. Para nós o vento da luta de classes se transformar em tempestade é fundamental para a construção do futuro comunista da humanidade.

Bibliografia:
TROTSKY, Leon- Escritos Latino-Americanos. Edições Iskra.

TROTSKY, Leon. Os Sindicatos na Época da Decadência Imperialista in marxists.org.

A greve dos petroleiros de 1995: o papel do PT e o avanço do neoliberalismo

A rebelião operária contra a ditadura e as origens do PT

A campanha das “Diretas Já” como mecanismo da transição conservadora

Notas sobre o PT, o neoliberalismo e a crise do regime de 1988

A estrutura sindical e a esquerda

O trabalhismo inglês mudou. Para onde?

 
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