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GRÉCIA TROIKA

Tsipras capitula frente a Troika e abre uma crise no Syriza

As novas concessões feitas pelo governo grego, que aceitou cortar as pensões e subir o IVA, garantiram um acordo entre a Grécia e a Troika. Frente ao abandono dos pontos mais importantes do seu programa eleitora, Syriza entrou em uma profunda crise.

Diego Lotito

Madri | @diegolotito

quarta-feira 24 de junho de 2015| Edição do dia

O acordo que Tsipras esta negociando com a Troika há cinco meses, e que agora se encontra mais perto de se concretizar, implica a aceitação por parte da Grécia da maioria das exigências da Troika, abandonando quase todas as promessas eleitorais. Uma atitude que muitos, dentro e fora do Syriza, consideram uma capitulação.

O acordo de 20 de fevereiro foi a primeira grande concessão, ao aceitar a prorrogação do resgaste, o controle pela Troika sobre as contas gregas e o compromisso de não tomar "medidas unilaterais". Este primeiro retrocesso, foi seguido do aumento das pressões do Eurogrupo e do FMI para impor a continuidade das políticas de cortes e "austeridade", dentro do já asfixiante pagamento da divida.

O governo de Tsipras se situou em uma posição absolutamente defensiva, retrocedendo com cada nova proposta. Nas últimas semanas, as negociações se desenrolaram em meio a uma constante chantagem desde o BCE (Banco Central Europeu) e o FMI (Fundo Monetário Internacional), ameaçando com o fantasma do "Grexit" e a quebra da Grécia.

A ultima proposta apresentada por Tsipras, recebida favoravelmente pela Troika como base para um acordo, aceita a reforma no sistema de pensões, com a eliminação paulatina das pré aposentadorias, aumento da idade para se aposentar e maiores cargas tributárias nas contribuições sociais para os pensionistas. Também aumentam os impostos regressivos, como o IVA (que afeta especialmente a população trabalhadora com menos recursos). O acordo inclui outras medidas como um aumento no imposto à sociedade, a bens de luxo e a publicação na TV, e uma pequena redução do orçamento de defesa.

Setores simpáticos ao Syriza, dentro da Grécia e no Estado Espanhol, apresentaram como "um bom acordo", dizendo que Tsipras "cedeu um pouco". Assim afirmou o líder do Podemos, Pablo Iglesias, ao falar a televisão espanhola nessa terça-feira, no principio do acordo.

No entanto, a realidade é diferente. Ao longo desses cinco meses, se tem cruzado todas as "linhas vermelhas" que havia fixado o Syriza durante a campanha eleitoral. Aceitaram uma nova prorrogação do resgaste, a reforma das pensões, um aumento dos impostos a população, o congelamento dos salários e mantiveram o processo de privatizações. Chamar isso de um "bom acordo" é difícil de se defender.

Syriza em crise

Em um artigo publicado dia 23 de junho, um dos referentes da Plataforma de Esquerda do Syriza, Stathis Kouvelakis, assegurou que "a lista de medidas do novo pacote de austeridade proposto pelo governo Syriza é absolutamente deprimente"

O vice presidente do parlamento e integrante do Syriza, Alexis Mitrópulos, disse, por sua vez, que essa proposta "não se pode votar, porque são extremas e antissociais". "Creio que esse pacote não pode entrar assim no Parlamento", assegurou.

Enquanto o deputado do Syriza, Yanis Mijeloyanakis, sustentou que essas medidas serão uma "lápide para a Grécia". Mijeloyanakis qualificou as novas propostas como um plano "pior que o primeiro resgaste", que aumentará a miséria social na Grécia. "Como se pode fazer um acordo que aumentará os suicídios e tornará a população mais pobre?", perguntou.

Essas declarações colocaram em dúvida a possibilidade de que o governo consiga uma votação favorável no parlamento. Entretanto, Tsipras conta com outras opções. A primeira: o apoio que outros partidos podem dar ao acordo, como os deputados do To Potami, um partido liberal de centro que ofereceu a Tsipras um acorde "de salvação nacional" para aprovar com o Eurogrupo.

A outra possibilidade, que não se pode descartar, é que o governo se veja obrigado a chamar a um referendo, ou inclusive eleições antecipadas, para ratificar o acordo. Ainda que isso abriria um período de incertezas políticas, o governo ainda conta a seu favor com um importante apoio entre a população, segundo as últimas pesquisas, frente ao terror que gerou em amplos setores da população a possibilidade de um "Grexit", com o medo do controle de capitais e da desvalorização da moeda que levaria a uma espiral de inflação. Não à toa, entre os líderes imperialistas da União Européia, esta variante foi vista como uma saída viável nas últimas semanas.

Para justificar o acordo, Tsipras esta tentando arrancar da Troika o compromisso de que no futuro se avaliará uma restruturação da dívida. Uma linha similar a que teve em 2012 o então primeiro ministro e líder do Nova Democracia, Antonis Smarás, que conseguiu uma promessa semelhante, mas nunca se concretizou na realidade.

Em seu artigo de terça-feira, Kouvelakis chama a mobilização contra um novo ajuste: "Esta espiral de retrocessos tem que terminar antes que seja muito tarde", disse. "Já é hora dos movimentos sociais e as forças combativas da esquerda reajam e lutem!".

Esta colocado a ruptura do Syriza no imediato? Não está claro ainda, entretanto é uma possibilidade. O que é inegável é que os setores críticos do Syriza estão desperdiçando um tempo valioso em "debates parlamentares" dentro do irrelevante Comitê Central do Syriza, durante o qual não somente se negaram a impulsionar a mobilização nas ruas, mas também chamaram a confiar no governo, do qual seguem fazendo parte.

Enquanto se negociava e se abandonava cada uma das promessas de seu já limitado programa eleitoral, as condições para enfrentar a Troika iam piorando constantemente. Por isso, o que faltava eram menos declarações na imprensa e mais ações para desenvolver a organização dos trabalhadores e da luta de classes.

Mas para isso, a "esquerda do Syriza" devia ter rompido há muito tempo com o governo e com seu próprio partido, que é justamente o que não está disposta a fazer.

Nos primeiro 150 dias de governo, o Syriza passou por uma importante prova, em que se demonstrou a impotencia de sua estratégia reformista de conciliação com a Troika e com os credores imperialistas europeus.

Para evitar que o povo grego seja condenado a miséria por gerações, é urgente a necessidade de impor medidas de luta de classes, um programa que enfrente a Troika, defendendo a ruptura de todos os acordos e memorandos, pelo não pagamento da divida, a nacionalização dos bancos e controle operário, em uma perspectiva de mobilização dos trabalhadores e da população, independente do governo.




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