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Governadores do Nordeste: entre as ameaças de Bolsonaro e da luta de classes

A pandemia de Covid vem avançando em passos largos no país. Chegamos ao recorde de 4mil mortes em um dia. No Nordeste não é diferente. Muitos dos estados da região se encontram na pior fase. Estados como PB, RN, BA, MA, PI estão registrando mais mortes agora que no pico do ano passado. O negacionismo de Bolsonaro supera todos os outros responsáveis por essa situação: não garantiu vacinas, testes, nem leitos e foi contra qualquer medida de contenção à pandemia. Contudo, não é possível dizer que há uma oposição "racional" por parte dos governadores, inclusive os do Nordeste, que também tem sua responsabilidade pela tragédia que vivemos.

sábado 17 de abril| Edição do dia

FOTO: Fernando Vivas/Governo da Bahia - 2019

Aproveitando o negacionismo de Bolsonaro, os governadores tentam se postular como uma oposição “racional” ao governo. Apesar da de haver uma articulação geral entre os governadores nesse sentido, surgem dois “polos” de liderança: por um lado o governador de SP João Dória, tentando capitalizar em cima da Coronavac e por outro lado o Consórcio Nordeste, que inclusive também estão tentando colocar a “sua marca” na vacinação, com a importação da vacina Sputnik V, sem registro ainda na Anvisa. No entanto, apesar do discurso, não apresentaram nenhum plano real de combate à pandemia. Sem promover testagem massiva e nem leitos suficientes, se limitaram a fechar o comércio e colocar medidas ultra autoritárias como toques de recolher noturno, que só fazem aumentar a repressão e não tem impacto sanitário. Mesmo a vacinação ainda anda a passos lentos e não foi capaz nem de conter a calamidade em Manaus que depois se alastrou pelo resto do país. Como resultado vemos a situação de colapso. A Bahia chegou a ter mais de 400 pessoas na fila por leitos.

Em Pernambuco, a ocupação das UTIs permanece acima de 95% há mais de um mês. Mesmo nesse colapso e com estados com curva ascendente, os governadores não hesitaram em abrir o comércio, academias até mesmo escolas, como mostra o caso de Pernambuco de Paulo Câmara PSB e RN de Fátima Bezerra do PT. Apenas evidenciando que seus planos não passam de pura demagogia.

A irracionalidade das medidas adotadas para supostamente conter a pandemia pelos governadores ficou escancarada neste mês de abril, fracassando absolutamente em diminuir a transmissão e as mortes. Pernambuco, por exemplo, mesmo durante a quarentena restritiva, com comércio fechado, o estado registrou os primeiros recordes de mortes diárias de 2021. E assim que a flexibilização retornou as atividades, mais recordes de mortes, dessa vez maiores que as do ano passado, alcançando 83 mortes em um dia, mais que 3 mortes por hora.

A ilusória disjuntiva entre morrer de fome ou morrer de covid não existe mais no Nordeste. O fechamento do comércio e o discurso hipócrita da Globo, o “fica em casa”, não conseguem esconder sua incapacidade de frear o alastramento da pandemia. Isso porque os trabalhadores nunca tiveram o direito de ficar em casa.

Durante toda a quarentena restritiva o transporte público seguia abarrotado, como sempre foi, pessoas espremidas contra as portas e janelas. E ainda vemos cenas como a do ambulante preso no metrô da Bahia durante o toque de recolher. Enquanto a polícia reprime a população e a juventude nas periferias, as verdadeiras aglomerações acontecem todos os dias, com o aval dos governadores, dentro dos galpões fechados dos telemarketings, da indústria e empresas de serviço, onde o vírus se propaga sob a vigia da patronal.

É mentira que os serviços não essenciais foram paralisados. Desde quando produzir jeeps é essencial em uma pandemia, ou então bater meta de venda de cartão de banco? Os trabalhadores de grupo de risco, acima de 50, com doenças cardíacas, respiratórias e outras comorbidades não foram afastadas. Os relatos de pessoas indo trabalhar doentes, com sintomas, até mesmo com atestado médico em mãos indicando a quarentena, são recorrentes.

Mas é ainda mais gráfico a total negligência dos governadores com a linha de frente, onde a pandemia está sendo de fato combatida pelos profissionais da saúde, nos postos de saúde, nas UPAs e nos hospitais, onde falta tudo que é necessário. Faltam insumos básicos, falta oxigênio, faltam UTIs, faltam respiradores, faltam trabalhadores, médicos, enfermeiros, tecnicos de enfermagem, profissionais de limpeza, que aliás, para estes até salário falta, centenas de profissionais estão trabalhando sem salário, que seguem atrasados há meses.

Isso para não mencionar EPIs, como máscara e álcool em gel de qualidade, que nunca foi oferecido seriamente para nenhum trabalhador desse país. Bolsonaro não escondeu sua política genocida. E ainda, diversos serviços declarados essenciais são colocados de fora dos grupos prioritários, como é o caso em Correios, caixas de supermercado, motoristas de ônibus, atendentes de farmácias, e até mesmo grupos de profissionais da saúde. Enquanto os governadores vacinam policiais, retomam as aulas sem garantia de vacinação para professores e a comunidade escolar. Os governadores seguem fingindo que se preocupam com a população, enquanto jogam os comerciantes para a miséria tirando-os das ruas sem um auxílio emergencial digno, matando trabalhadores de serviços que não são essenciais para o combate da pandemia, e ainda usam a juventude das periferias como bode expiatório para ter a quem culpar. Essa é a política dos governadores.

Concomitante com a crise sanitária, avança a crise econômica. Sem nunca ter tido um real plano de combate e com a vacinação andando a passos de tartaruga, a situação econômica e social também se deteriora. O fim do auxílio emergencial somado ao desemprego recorde levou a extrema-pobreza pular de 8,5% no fim do ano passado para 12,9% nesse ano, segundo a FGV, mais alto que antes da pandemia e que há uma década atrás. O aumento da carestia de vida fez com que mesmo com a supersafra de grãos em 2020/2021 a insegurança alimentar atingiu mais de 50% dos lares brasileiros ainda em dezembro do ano passado, situação que deve ter piorado esse ano. Cada vez são maiores as filas em doações de comida, assim como também é cada vez mais frequente campanhas de doação de comida na mídia, para lavar cara das emissoras da elite que segue enriquecendo com tanta miséria. Cabe dizer que a explosão da pandemia esse ano também condiz com o fim do auxílio, obrigando milhões de trabalhadores a se exporem. O novo auxílio aprovado, que varia entre 175 e 375 reais por 4 meses não alterará tanto esse quadro. Tampouco terá muito o impacto os auxílios aprovados pelos governos e prefeituras, como no caso de Recife em que para 40% dos beneficiários será de duas parcelas de 50 reais

No Nordeste essa situação é ainda mais grave. Terminou o ano passado sendo a região com maior índice de desemprego, 16,7%, 2,2% acima do valor de 2019 e acima também da taxa nacional de 13,5%. A região teve o maior nível de insegurança alimentar, 71,9% sendo a segunda que registrou mais lares com insegurança alimentar grave (situação de fome), 13,8%, atrás apenas da região Norte. Com 50% de todos os inscritos no CadUnico do país, a região também é duramente afetada com o fim do auxílio. Uma projeção mostra uma queda de 8% na renda da região, assim como um crescimento menor que em outras regiões do país. Um dado recente aponta que por exemplo, o RN, tem hoje um terço da sua população em situação de extrema-pobreza.

Como resultado, a popularidade de Bolsonaro despenca no país, mas especialmente na região Nordeste. Após atingir o pico em setembro do ano passado, a popularidade do presidente agora está no patamar mais baixo desde o início do mandato. No entanto os governadores não estão imunes a essa situação e também observam sua popularidade cair.

Bolsonaro vs Governadores: qual a real luta por trás disso?

Há uma disputa retórica instalada no país entre Bolsonaro e os governadores, apoiados pelo STF. Bolsonaro quer impor a sua vontade contra os governadores no tema do isolamento social, e tentou empurrar a briga para o terreno militar ao mover sua tropa parlamentar federal e estadual para incitar um motim policial na Bahia, após a própria PM matar um policial que gritava por “dignidade” em meio a disparos para o alto, na frente do Farol da Barra. Sem sucesso, buscou insuflar sua base reacionária de policiais para criar uma situação favorável para algum tipo de intervenção militar no estado.

Essa semana começou com o STF, através do ministro Barroso, instalando uma CPI da pandemia contra Bolsonaro (como toda CPI, no parlamentarismo burguês, uma fumaça de pressão para manter as coisas tal como estão) no Congresso. Em resposta moveu um punhado de fiéis nos estados e discursou em favor da inclusão de governadores na investigação, apontando o dedo para Fátima Bezerra.

Frente a essa agressividade reacionária de Bolsonaro, os governadores respondem da mesma forma que sempre fizeram: evitando o conflito com o governo federal. Após ataques de Bolsonaro ao ministro Barroso, criticaram o governo por “inventar falsas guerras”. Ao mesmo tempo que buscam se separar da política do governo federal da pandemia, por exemplo, comprando vacinas pelo Consórcio Nordeste, inclusive oferecendo parte ao governo federal, das medidas de isolamento, o que eles querem é a “paz” com Bolsonaro, sendo funcionais à manutenção do seu governo. Inclusive, a depender do grau de popularidade de Bolsonaro, alguns desses governadores não hesitam nem em fazer elogios. Como é o caso de Fátima Bezerra que chegou a dizer que Bolsonaro “tem compromisso com a vida da população”, quando o auxílio emergencial inflou a aprovação do Bolsonaro.

Esse chamado a Bolsonaro a governar, desde o começo da pandemia até hoje, é definidor da política dos governadores do Nordeste, inclusive com os do PT à frente, de batalhar pela manutenção do regime do golpe institucional. Esse compromisso com a “ordem” golpista levou a que o governador Camilo Santana mandasse a polícia para reprimir atos contra Bolsonaro no meio da pandemia. Foram implementadores de parte da agenda econômica do golpe através da reforma da previdência estadual, com muita repressão aos servidores em alguns lugares. Inclusive se aliaram com Dória e outros governadores da direita para pedir ao STF que proibisse a unificação de leitos públicos e privados. Se colocam contra derrubar Bolsonaro até mesmo pelo impeachment, não porque sabem que se trata de uma medida reacionária que daria lugar a Mourão na presidência, mas porque temem que a instabilidade do governo possa levar a maiores explosões sociais.

O ódio xenófobo de Bolsonaro ao Nordeste e os seus “paraíbas”, vem justamente do fato de que, por ser a região onde conta com os mais altos índices de rejeição, é a região onde mais podem se desenvolver mobilizações contra seu governo. Bolsonaro sabe o histórico de lutas e revoltas na região e teme isso, lhe assusta. O ódio de Bolsonaro representa o ódio da classe dominante brasileira, que desde sempre vem despejando sua xenofobia contra os nordestinos.

A verdade é que os governadores preferem lidar com a trupe fascistizante de Bolsonaro nas ruas, as ameaças de estado de sítio e intervenção militar, do que com as massas de trabalhadores nas ruas. Por que elas poderiam ameaçar a estabilidade do conjunto do regime, levar ao questionamento à condução dos seus governos da pandemia e da crise, e debilitar as chances do PT e seus aliados voltarem ao poder em 2022.

Chegaram até a colocar o governador Renan Filho (MDB-AL) como representante do Consórcio no “comitê anti-crise” criado nas últimas semanas entre Bolsonaro e alguns governos estaduais, que tinha o único objetivo de fazer um jogo de cena para os empresários. Enquanto os governos do PT buscavam diálogo com João Dória e Eduardo Leite para eventual aliança eleitoral em 2022.

A real luta por trás desses setores é a luta de classes, o receio que ambos tem que o aumento do descontentamento com Bolsonaro, com a trágica situação da pandemia, do desemprego e da fome, se expresse nas ruas. Pelo fato da crise se expressar de maneira mais forte no Nordeste como vimos, e do regime do golpe ter acabado com as ilusões de desenvolvimento regional, de aumento de consumo, etc, que vigorou nos anos do governo do PT, é uma região onde “a corda pode estourar” potencialmente antes.

Os governadores de conjunto contam como fiéis garantidores dessa estabilidade do regime do golpe, que une o PT a todos os partidos que apoiaram o golpe institucional e sua agenda de ataques, é garantida pelas centrais sindicais controladas pelo PT, CUT e CTB, que garantem a passividade nos sindicatos, assim como a UNE no movimento estudantil.

A urgência de um plano de emergência de combate à pandemia, que nenhum desses governos fez, só poderia ser arrancada pela força dos trabalhadores. Um programa que garanta, em primeiro lugar, vacina para todos já, quebrando as patentes e estatizando os laboratórios e indústrias produtoras de IFAs, como propuseram parlamentares da Frente de Esquerda na Argentina. Mas também inclua testagem massiva, rastreamento de novas variantes do coronavírus, afastamento remunerado do setor de grupo de risco, direito a afastamento remunerado de todos aqueles que apresentarem ou tiveram contato com quem apresentou sintomas, investimento imediato e contratação emergencial de trabalhadores na saúde, paralisação de fato das atividades não essenciais, contratação e reconversão das indústrias para produção dos insumos que faltam hoje, além de um auxílio quarentena de no mínimo um salário mínimo pago pelas fortunas capitalistas que cresceram durante a pandemia.

O que as centrais sindicais deveriam fazer é batalhar por comitês de higiene e saúde em cada local de trabalho que não parou para garantir que os trabalhadores do grupo de risco fossem liberados e que nenhum emprego fosse perdido para conter a pandemia. Ao contrário, administraram as demissões como vimos na Ford, e se recusam a apresentar um plano de luta que unifique as lutas como a greve na LG, a luta dos garis no RJ, com a greve nos transportes chamada para o dia 20 desse mês. Estão sentando com as patronais e aconselhando como podem amenizar a indignação com a barbárie que eles criaram, como ficou bem expresso na reunião que decidiu o decreto de reabertura da economia no RN. Junto com UNE que foi auxiliar da reitoria na implementação do ensino remoto e de dizer que não é hora de ir pra rua, alimentaram a desmoralização e a desconfiança na nossa própria força. Na força das negras e negros, mulheres, da juventude aliada com os trabalhadores, a única classe realmente essencial, mora a alternativa para dar uma saída para a pandemia. Não podemos esperar passivamente as eleições de 2022, como se a candidatura de Lula fosse resolver tudo. Quantos milhares mais terão de morrer desnecessariamente até lá?

É nesse potencial dos trabalhadores e oprimidos nordestinos de se insurgirem contra Bolsonaro e o regime do golpe de conjunto é que nós do MRT e do Esquerda Diário acreditamos. E para isso, terão que se enfrentar também com os governadores, que mesmo se colocando no campo da “centro esquerda”, não fazem mais que administrar o legado do golpe institucional. Inclusive foram os primeiros a aprovar a reforma da previdência estadual e não vacilaram em reprimir fortemente qualquer mobilização, inclusive contra Bolsonaro. Os governadores do PT na região são um prelúdio do que o PT pretende fazer no executivo nacional, de continuar administrando o legado do golpe, como mostra Lula em seus discursos e entrevistas, onde nada fala sobre a revogação das reformas e do teto de gastos.

Nesse cenário, se faz urgente construir uma força política com independência de classe, que aposte na mobilização da classe trabalhadora para se enfrentar contra todos os ataques, lutando pelo Fora Bolsonaro e Mourão, mas também para pôr abaixo esse regime podre fruto do golpe institucional de 2016. É nessa perspectiva que o MRT se coloca.




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