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HOLLYWOOD

Globo de ouro: o protagonismo das mulheres contra o assédio

Premiação realizada no dia 7 de janeiro, em Hollywood foi marcada pelo protagonismo das mulheres frente às inúmeras denúncias de assédio.

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

terça-feira 9 de janeiro| Edição do dia

Vestidas de preto as mulheres marcaram o Globo de Ouro em Hollywood. Novamente escancaram os assédios e o machismo na indústria cinematográfica. Essa visibilidade ao tema abre vários debates que são importantes de serem feitos em cada local de trabalho para unir a classe trabalhadora, dividida pelo machismo que assim serve para dificultar a luta contra os capitalistas que se beneficiam de muitas maneiras da exploração das mulheres. A visibilidade do machismo não o resolve, não será Hollywood que levará uma luta que terá que ser travada por mulheres e homens trabalhadores.

Mesmo assim o evento de anteontem suscitou muitos debates que podem ser um ponto de apoio para discussões que vão além do que Hollywood pode e quer fazer.

É preciso em primeiro lugar salientar que se houve um protagonismo feminino na premiação que ocorreu na noite de 7 de janeiro, em Hollywood não foi devido a organização do Globo de Ouro, que colocou um homem, Seth Meyers, para apresentar a premiação mesmo com todas as denúncias do machismo vigente na maior indústria cinematográfica do mundo. Essa escolha já aponta para o machismo sutil que se expressa na porcentagem de que apenas 30% de mulheres possuem falas em filmes, sendo que a maior parte dessas falas são sobre homens.

No fim do ano passado diversas denúncias de assédio começaram a ser realizadas contra grandes nomes de Hollywood, em uma onda de auto organização das mulheres que cansaram de ficar caladas frente a uma postura machista, que infelizmente não se trata de algo pontual ou fora da curva.

É preciso sempre lembrar que vivemos em uma sociedade capitalista que se aproveita das opressões para poder explorar mais, um sistema que convence ideologicamente de que a mulher é inferior ao homem podendo receber menos pelo mesmo trabalho, como já foi denunciado até mesmo em Hollywood, e podendo ser vista como uma propriedade. É importante lembrar isso para termos sempre em vista que esses casos escandalosos de Hollywood são fruto direto do sistema capitalista e que só terão fim com o fim desse sistema, pois se hoje as mulheres de Hollywood estão sendo ouvidas há milhares de mulheres no mundo que nunca serão ouvidas.

Frente a todos esses casos de assédio que vieram a público o Globo de Ouro, a premiação que dá o pontapé inicial nas premiações anuais que se encerram com o Oscar, não poderia ser realizada como se nada estivesse acontecendo; foi por isso que as atrizes, cantoras, roteirista, enfim, a maioria das mulheres presentes resolveram se manifestar indo de preto a premiação.

Mas a manifestação não ficou apenas nas vestimentas, já no tapete vermelho diversas atrizes apareceram acompanhadas de militantes do movimento feminista. Os discursos também foram muito políticos, como o da primeira ganhadora da noite Nicole Kidman que agradeceu em seu discurso as mulheres que a faziam mais forte, assim como a fala de sua companheira na série Big Little Lies - uma das grandes ganhadoras da noite junto com The Handsmaid’s Tale - Laura Dern.

Seth Meyers, o apresentador da noite, também não deixou que os assédios fossem esquecidos; em seu monólogo de abertura falou sem rodeios sobre o assunto citando nomes como Harvey Weinstein, Kevin Spacey, e até casos antigos como os assédios de Woody Allen:

"Boa noite, senhoras e cavalheiros que sobraram. Eu sou Seth Meyers e serei seu anfitrião esta noite. Bem-vindo ao 75º Globo de Ouro. E Feliz Ano Novo, Hollywood! É 2018, finalmente a maconha é permitida e o assédio sexual finalmente não é. Vai ser um bom ano!

Este foi o ano de pequenas grandes mentiras e corra — e também da série ’Big Little Lies’ e do filme ’Get Out’. Há uma nova era começando e eu posso dizer porque há anos um homem branco não se sentia tão nervoso em Hollywood. Aliás, um alô especial aos anfitriões dos próximos prêmios que estão me assistindo hoje a noite como o primeiro cachorro disparado no espaço.

Para os homens indicados nesta noite, é a primeira vez em três meses que não será assustador ouvir o seu nome lido alto. "Você ouviu sobre Willem Dafoe?" "Oh, Deus, não!" "Ele foi nomeado." "Não faça isso! Não faça isso ".

Considerando o que aconteceu neste ano com homens poderosos e seu terrível comportamento em Hollywood, muitos achavam que seria mais apropriado uma mulher apresentar o prêmio, e talvez estejam certos. Mas se for um consolo, eu sou um homem com absolutamente nenhum poder em Hollywood. Eu não sou nem o Seth mais poderoso na sala esta noite. (aponta para Seth Rogen) Ei, vocês lembram quando ele era o cara causando problemas com a Coréia do Norte? Tempos mais simples".

Eles tentaram uma mulher para apresentar o show, realmente tentaram. Disseram: "Ei, você gostaria de vir e ser julgada por algumas das pessoas mais poderosas em Hollywood?" E as mulheres perguntavam, "Hmm, bem, onde está?" E eles responderam: "Será em um hotel ". Encurtando a história, sou seu anfitrião esta noite.

E estamos todos aqui esta noite convidados pela Imprensa Estrangeira de Hollywood. Sim, aplausos para Imprensa Estrangeira de Hollywood. Uma sequência de três palavras que não poderia ter sido melhor concebida para enfurecer o nosso presidente. "Imprensa Estrangeira de Hollywood". O único nome que poderia irritá-lo ainda mais seria a Associação da Salada Mexicana de Hillary.

Bem, acho que é o momento de abordar o elefante na sala. Harvey Weinstein não está aqui esta noite. Porque, bem, eu ouvi rumores de que ele é louco e difícil de trabalhar. Mas não se preocupem, ele estará de volta em 20 anos, quando será a primeira pessoa a ser vaiada durante o "In Memoriam". (som de vaias). Vai soar assim mesmo.”

Outro discurso marcante e que invadiu as redes sociais nessa manhã foi o discurso de Oprah Winfrey; a atriz e apresentadora recebeu um prêmio especial concedido ao conjunto da obra, Cecil B. DeMille, em seu discurso de agradecimento Oprah lembrou a luta das mulheres negras, o recente levante contra o assédio emocionando a todos.

Discurso de Oprah:
"Obrigada, Reese [Witherspoon]. Em 1964, eu era uma garotinha sentada no chão de linóleo da casa da minha mãe em Milwaukee, assistindo Anne Bancroft apresentar o Oscar de melhor ator, na 36ª edição do prêmio. Ela abriu o envelope e disse cinco palavras que literalmente fizeram história: ’O vencedor é Sidney Poitier’. O homem mais elegante que eu já vi subiu ao palco. Sua gravata era branca, sua pele era negra – e ele estava sendo celebrado. Nunca havia visto um homem negro ser celebrado dessa maneira.

Tentei muitas, muitas vezes explicar o que um momento como esse significa para uma garotinha, uma criança que olha a mãe passar pela porta, cansada até os ossos de limpar a casa de outras pessoas. Mas tudo o que posso fazer é citar aquela música que Sidney cantou em ’Os lírios do campo’: ’Amém, amém, amém, amém’.

Em 1982, Sidney recebeu o prêmio Cecil B. DeMille aqui no Globo de Ouro, e eu sei que, neste momento, há algumas garotinhas assistindo eu me tornar a primeira mulher negra a receber esse mesmo prêmio. É uma honra, é uma honra e é um privilégio compartilhar a noite com todas elas e também com os incríveis homens e mulheres que me inspiraram, que me desafiaram, que me apoiaram e fizeram minha jornada até esse ponto possível. Dennis Swanson, que apostou em mim para o talk show ’A.M. Chicago’. Ele me viu no programa e disse ao Steven Spielberg: ’Ela é a Sophia de ‘A Cor Púpura’’. Gayle, minha amiga, e Stedman, meu porto seguro.

Quero agradecer à Associação dos Correspondentes Estrangeiros. Sabemos que a imprensa está sob cerco nos dias de hoje. Nós também sabemos que é a dedicação insaciável para descobrir a verdade absoluta que nos impede de fechar os olhos para a corrupção e a injustiça – para tiranos e vítimas, e segredos e mentiras. Eu quero dizer que valorizo a imprensa mais do que nunca, enquanto tentamos navegar esses tempos complicados, o que me faz pensar nisso: o que eu sei, com certeza, é que falar sua verdade é a ferramenta mais poderosa que todos nós temos.

E eu estou especialmente orgulhosa e inspirada por todas as mulheres que se sentiram fortes o suficiente e empoderadas o suficiente para falar e compartilhar suas histórias pessoais. Cada um de nós nesta sala é celebrado por causa das histórias que contamos, e este ano nós nos tornamos a história. Mas essa não é uma história que afeta apenas a indústria do entretenimento. É uma história que transcende qualquer cultura, geografia, raça, religião, política ou local de trabalho.
Então, eu quero hoje a noite expressar gratidão a todas as mulheres que sofreram anos de abuso e agressão porque elas, como minha mãe, tiveram filhos para se alimentar e contas a pagar e sonhos para perseguir. São as mulheres cujos nomes nunca conheceremos. São trabalhadoras domésticas e trabalhadoras agrícolas. Elas estão trabalhando em fábricas, em restaurantes, estão nas universidades, engenharia, medicina e ciência. Elas fazem parte do mundo da tecnologia, da política e dos negócios. Elas são nossos atletas nas Olimpíadas e elas são nossas soldadas nas Forças Armadas.

E há outra pessoa, Recy Taylor, um nome que conheço e acho que vocês também deveriam conhecer. Em 1944, Recy Taylor era uma jovem esposa e mãe que caminhava para casa voltando da igreja que ela frequentava em Abbeville, no Alabama, quando foi raptada por seis homens brancos armados, estuprada e deixada com os olhos vendados ao lado da estrada. Indo para casa, depois da igreja.

Eles ameaçaram matá-la se ela alguma vez contasse a alguém, mas sua história foi relatada à Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, onde uma jovem trabalhadora chamada Rosa Parks se tornou a investigadora principal em seu caso e juntas buscaram justiça. Mas a Justiça não era uma opção na era de Jim Crow. Os homens que tentaram destruí-la nunca foram perseguidos. Recy Taylor morreu há dez dias, pouco antes de seu aniversário de 98 anos.

Ela viveu como todos nós vivemos, muitos anos em uma cultura destruída por homens brutalmente poderosos. Por muito tempo, não ouviam as mulheres, ou não acreditavam nelas quando ousavam falar a verdade sob o poder desses homens. Mas esse tempo acabou. Esse tempo acabou. Esse tempo acabou.

E eu só espero – eu só espero que Recy Taylor tenha morrido sabendo que sua verdade, como a verdade de tantas outras mulheres que foram atormentadas naqueles anos, e até agora atormentadas, segue adiante. Estava em algum lugar no coração de Rosa Parks, quase 11 anos depois, quando tomou a decisão de ficar sentada no ônibus em Montgomery, e está aqui com todas as mulheres que escolhem dizer: ’Eu também’. E está em todo homem – todo homem que escolhe ouvir.

Na minha carreira, o que sempre tentei fazer de melhor, seja na televisão ou
no cinema, é dizer algo sobre como homens e mulheres realmente se comportam. Para dizer como sentimos vergonha, como amamos e como nos enfurecemos, como falhamos, como recuamos, perseveramos e como superamos. Entrevistei e retratei pessoas que resistiram às coisas mais feias que a vida pode oferecer, mas uma qualidade que todos parecem compartilhar é a capacidade de manter a esperança
para uma manhã mais clara, mesmo durante as noites mais sombrias.

Então, eu quero que todas as garotas assistindo aqui, agora, saibam que um novo dia está no horizonte! E quando esse novo dia finalmente amanhecer, será por causa de muitas mulheres magníficas, muitas das quais estão aqui neste auditório, esta noite e alguns homens fenomenais, lutando para garantir que se tornem os líderes que nos levam ao tempo em que ninguém nunca mais terá de dizer “Eu também”.’

Confira aqui os ganhadores:

—Cinema

Melhor Filme – Drama

● "Três anúncios para um crime"

Melhor Filme – Comédia ou musical
● "Lady Bird: É hora de voar"

Melhor diretor
● Guillermo del Toro ("A forma da água")

Melhor ator de filme – Drama
● Gary Oldman ("O destino de uma nação")

Melhor atriz de filme – Drama
● Frances McDormand ("Três anúncios para um crime")

Melhor ator de filme – Comédia ou Musical
● James Franco ("Artista do desastre")

Melhor atriz de filme – Comédia ou Musical
● Saoirse Ronan ("Lady Bird: É hora de voar")

Melhor atriz coadjuvante de filme
● Allison Janney ("Eu, Tonya")

Melhor ator coadjuvante de filme
● Sam Rockwell ("Três anúncios para um crime")

Melhor roteiro de filme
● Martin McDonagh ("Três anúncios para um crime")

Melhor animação
● "Viva: A vida é uma festa"

Melhor filme em língua estrangeira
● "Em pedaços"

Melhor trilha sonora para filme
● Alexandre Desplat ("A forma da água")

Melhor canção original para filme
● "This is me", de "O rei do show"

—TV

Melhor série – Drama
● "The Handmaid’s Tale" Melhor série

Musical ou Comédia
● "The Marvelous Mrs. Maisel"

Melhor série limitada ou filme para a TV
● "Big Little Lies"

Melhor ator de série – Drama
● Sterling K. Brown ("This is us")

Melhor atriz de série – Drama
● Elisabeth Moss ("The Handmaid’s Tale")

Melhor ator de série – Musical ou Comédia
● Aziz Ansari ("Master of None")

Melhor atriz de série – Musical ou Comédia
● Rachel Brosnahan ("The Marvelous Mrs. Maisel")

Melhor atriz de minissérie ou filme feito para TV
● Nicole Kidman ("Big Little Lies")

Melhor ator de série limitada ou filme feito para TV
● Ewan McGregor ("Fargo")

Melhor atriz coadjuvante em série, minissérie ou filme para TV
● Laura Dern ("Big Little Lies")

Melhor ator coadjuvante para série, minissérie ou filme feito para TV
● Alexander Skarsgård ("Big Little Lies")




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